Aqui você vai conhecer as mazelas que impedem o Poder Judiciário brasileiro de desembainhar a espada da severidade da justiça para cumprir a função precípua da aplicação coativa das leis. Sem justiça, as leis não são aplicadas e deixam de existir na prática. Sem justiça, qualquer nação democrática capitula diante de ditadores, corruptos, bandidos, rebeldes, justiceiros, imorais e oportunistas. O Brasil precisa de uma justiça coativa, proba, célere, séria, confiável e comprometida com as questões nacionais, de direito e de ordem pública, integrada no Sistema de Justiça Criminal.
- Veja no rodapé deste blog a justiça que queremos e a que não queremos no Brasil

terça-feira, 10 de março de 2015

UM SERVIDOR EXEMPLAR



ZERO HORA 10 de março de 2015 | N° 18097



JOSÉ LUÍS COSTA*



A profissão de jornalista é uma daquelas que permitem acesso a todas as camadas da sociedade. Num dia, você pode estar em um lixão, entrevistando o mais humilde dos catadores de papel. No outro, pisando em tapete vermelho palaciano diante de uma realeza.

Admito que nunca entrevistei reis ou rainhas. Até poderia, durante a Copa do Mundo, quando recebi a missão de acompanhar o casal real holandês que esteve em Porto Alegre, mas foi impossível.

Meu contato diário é com setores da segurança. Delegacias, quartéis, fóruns, presídios. Em tantas andanças, que já passam de duas décadas, cruzei com incontáveis servidores públicos. Gente simples, gente de nariz empinado, pessoas que trabalham de verdade e outras nem tanto assim.

São inúmeros personagens que até renderiam livro. Mas vou contar a história de um deles aqui. Trata-se de Roberto Vucetic, assistente social da Vara de Execuções Criminais (VEC) de Porto Alegre. Roberto é um servidor Público, assim, com P maiúsculo. Sua vida é ajudar apenados descamisados, adoentados, sem condições de sustentar a si e muito menos à família.

No balcão da VEC, surgem problemas aos pacotes trazidos por mulheres de presos, mães de presos e filhos de presos. É quase um muro de lamentações. E Roberto se esforça para resolver todos. É comum ele alegrar rostos sofridos com um prato de comida. Sim, aparece muita gente na VEC de estômago roncando. Se uma refeição não basta, ele compra uma cesta básica. Arruma dinheiro para remédios, para o ônibus, para o gás. Tudo do próprio bolso. Se não tem, faz uma vaquinha pelos corredores do fórum.

De folga, aos finais de semana, Roberto “faz plantão” no Hospital Vila Nova, auxiliando famílias que chegam do Interior para visitar presos internados. Ano passado, um detento morreu. De tão pobre, não tinha nem roupa para vestir o corpo. Roberto providenciou. E comprou um buquê de flores.

Aos presos que querem recomeçar a vida, Roberto os incentiva. Agiliza carteira de trabalho, indica emprego. Nas vilas mais perigosas ele entra sem medo. O respeito é tão grande, que convence foragidos a voltar para a cadeia e cumprir a pena com dignidade. Tempos atrás, saiu faceiro, às 10 da noite de um domingo, de uma cadeia feminina. Depois de horas, conseguiu instalar uma pia em uma cela, comprada com recursos tirados do bolso e levada em seu carro particular. Em um país em que a roubalheira na Petrobras envergonha o serviço público, ainda é possível se orgulhar dos muitos Robertos que existem por aí.



Jornalista, repórter de Zero Hora

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